A ERA DO STREAMING É O REINO DA MESMICE?

  

Imagem: GSPictures/Getty Images

A era do streaming é o reino da mesmice?

Há uma aparente paralisia cultural. Nunca tivemos acesso a uma quantidade tão vasta de filmes, músicas e livros, mas as indicações “personalizadas” impedem a experiência com o novo. A verdadeira censura algorítmica não é proibir, mas tornar invisível o que não aprendemos a procurar

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Poéticas

Por Erick Kayser

Publicado 20/08/2026 às 16:32 - Atualizado 20/08/2026 às 16:49

Há algo de aparentemente paradoxal na experiência cultural contemporânea. Nunca tivemos acesso a uma quantidade tão vasta de filmes, músicas, livros, vídeos e outras formas de produção cultural. Netflix, Spotify, YouTube e TikTok colocaram à disposição do público um acervo que nenhuma geração anterior poderia imaginar. Ao mesmo tempo, tornou-se cada vez mais comum passar horas diante dessas plataformas consumindo variações sobre aquilo que já conhecemos. Terminamos uma série e recebemos imediatamente outras semelhantes. Ouvimos uma música e somos conduzidos a uma sequência de faixas próximas. Um vídeo leva a outro que repete sua estrutura, seu ritmo e seu tema. A promessa de personalização tem seu efeito mais inquietante na redução do espaço para a descoberta.

As plataformas transformam nosso histórico em dados para antecipar nossa atenção. O algoritmo media a totalidade da cultura e o que chega até nós. A abundância do catálogo convive com a seletividade extrema: o problema não é o que podemos consumir, mas o que somos continuamente convidados a consumir.

É preciso levar essa questão para além da ideia de que as pessoas simplesmente perderam o interesse pelo novo. A história da cultura mostra justamente o contrário. Novas formas artísticas frequentemente surgiram porque alguém encontrou uma obra que não correspondia às suas expectativas anteriores. O gosto também é produzido pelo encontro com aquilo que inicialmente nos causa estranhamento. Ninguém poderia saber antecipadamente que apreciaria uma música, um diretor ou um gênero que ainda desconhece.

O novo é difícil de recomendar porque ainda não possui um histórico de preferências que permita calculá-lo. Aquilo que não sabemos procurar corre o risco de desaparecer justamente por não corresponder ao que já procuramos.

Essa transformação pode ser compreendida como uma nova etapa da indústria cultural. Adorno e Horkheimer identificaram, no século XX, a padronização que acompanhava a transformação da cultura em mercadoria. Cinema, rádio, música popular e televisão eram organizados segundo fórmulas capazes de produzir reconhecimento e consumo em escala. A indústria precisava, entretanto, manter algum movimento permanente de renovação. Novos artistas, gêneros, estrelas e tendências eram necessários para alimentar o próprio mercado. A cultura precisava produzir novidades, ainda que frequentemente fossem variações sobre formas já consolidadas.

A indústria cultural contemporânea acrescenta uma capacidade inédita: transformar a experiência passada dos consumidores em instrumento para calcular sua experiência futura. O século XXI pode estar produzindo uma forma de padronização mais sofisticada do que aquela conhecida no século anterior. Os conteúdos não precisam parecer idênticos. Podem existir milhões de obras formalmente distintas. Basta que sua circulação seja submetida a critérios semelhantes de retenção, engajamento, reconhecimento e previsibilidade.

A consequência mais profunda é o estreitamento qualitativo: a diversidade de produtos cresce, mas as ocasiões de encontro com o que interrompe hábitos se reduzem. Um sistema guiado pela previsibilidade da atenção dificulta a experiência da novidade, que amplia nossa percepção.

O problema vai além das Big Techs: o capitalismo quer rentabilizar a incerteza. Quanto mais precisamente conseguimos prever aquilo que as pessoas consumirão, menos necessário parece correr o risco de apresentar aquilo que ainda não possui demanda reconhecível.

O futuro cultural passa a ser projetado como uma extensão estatística do passado. É nesse ponto que a questão da censura assume uma forma inesperada. A verdadeira censura algorítmica não é proibir, mas tornar invisível aquilo que ainda não aprendemos a procurar.

Fonte:https://outraspalavras.net/poeticas/a-era-do-streaming-e-o-reino-da-mesmice/

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